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O gênio fora da garrafa

O Supremo Tribunal Federal virou o assunto mais desconfortável do Brasil. Não entre os críticos que já vinham apontando o problema — esses nunca se acovardaram. Mas entre aqueles que, por anos, escolheram o silêncio conv...

O Supremo Tribunal Federal virou o assunto mais desconfortável do Brasil. Não entre os críticos que já vinham apontando o problema — esses nunca se acovardaram. Mas entre aqueles que, por anos, escolheram o silêncio conveniente, o reparo contido, a ressalva sussurrada para não atrapalhar o que julgavam ser o combate mais importante.

A opinião pública, as pesquisas, os intelectuais, os acadêmicos, a Ordem dos Advogados do Brasil — que finalmente saiu de um mutismo envergonhado que já durava tempo demais — convergem para o mesmo diagnóstico: o Supremo ultrapassou seus limites constitucionais e precisa voltar aos trilhos. A questão, cada vez mais urgente, é saber se ainda há trilhos para os quais voltar.

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Há uma metáfora antiga que descreve com precisão o que nos trouxe a esse ponto. A da garrafa e o gênio. De quem, convencido de que controlava o processo, decide liberá-lo. E descobre, tarde demais, que gênios libertados não recebem ordens de volta.

Merval Pereira, um dos mais respeitados colunistas do jornalismo brasileiro e o menos militante entre os comentaristas que se alinharam à narrativa dominante da grande imprensa durante os anos de resistência ao governo Bolsonaro, publicou no último dia 19, no jornal O Globo, o que pode ser chamado, com a devida generosidade, de mais um mea culpa. Não é a primeira vez. O mérito de Merval está exatamente nisso — em bater na mesma tecla, em não enterrar o reconhecimento do erro numa nota de rodapé esquecida.

Ele admite, mais uma vez, que medidas consideradas exageradas — as longas prisões provisórias, as punições a críticas mesmo as mais brandas — eram toleradas pela imprensa profissional, inclusive por ele próprio, no entendimento de que o objetivo final era correto. A democracia precisava ser protegida. Os fins justificavam os meios. Quem questionasse os métodos seria confundido com cúmplice dos inimigos.

É preciso entender o contexto para dimensionar o que isso significa. A grande maioria dos colunistas e comentaristas da imprensa nacional — Globo, os grandes canais de televisão, os principais jornais — esteve, por anos, alinhada a tudo que o Supremo vinha fazendo. Havia um inimigo comum. Não gostavam do governo Bolsonaro, não gostavam de seu estilo pouco fidalgo, de seu comportamento que faltava com a compostura que a grande imprensa sempre exigiu dos ocupantes do Planalto.

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